segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

CYNIC

«Re-Traced»
(Season of Mist, 2010) [5.5/10]


Servindo-se de estéticas electrónicas e ambientais, Masvidal e companhia reinterpretam aqui quatro temas de «Traced in Air», com resultados que deixam muito a desejar. Partindo das estruturas melódicas de base, os temas foram reduzidos a um experimentalismo minimalista que lhes subtraiu dinâmica, sacrificando no processo muitos dos detalhes que fazem o encanto das versões originais. O inédito «Wheels within wheels», recuperado das sessões de gravação do álbum de 2008, compensa parcialmente o desastre.

in Clip (Diário de Aveiro), 2 Dezembro 2010

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

JALDABOATH

«The Rise of the Heraldic Beasts»
(Death to Music/Napalm Records, 2010) [9/10]

“And now for something completely different” parece ser o aforismo apropriado para apresentar este disco, por um lado porque é realmente diferente e original, e por outro porque tem no humor que o caracteriza a inequívoca influência dos célebres Monthy Pytton. Em toada rejubilante, as canções narram em tom sarcástico os feitos rocambolescos de guerreiros medievais, baseando-se em melodias que tanto assumem o carácter de hinos pomposos, como a ingenuidade de temas infantis. A base rítmica é possante, embora algo mecanizada, e a música, que sugere bem o espírito trocista das letras mesmo nas faixas aparentemente sérias de inspiração literária, é quase sempre conduzida por teclados que imitam instrumentos como o trompete, bem como outros de sonoridade distintamente medieval. Na frente desta formação britânica está o eclético James Fogarty que já assinava como Jaldaboath nos tempos em que integrava os excepcionais The Meads of Asphodel. E aqui deve notar-se que a recuperação do heterónimo não surge à toa, dado que tanto a abordagem pouco ortodoxa como o registo vocal grave de Fogarty nos remetem ocasionalmente para o universo dos The Meads. Contudo, esta é uma entidade artística muito diferente, com uma oferta singular mesmo entre as propostas de folk metal já existentes. Um disco descontraído que a banda descreve, segundo o bom-humor que lhes é característico, como “hammering heraldic metal” ou “crusade-core”, e que na verdade encerra nada menos do que os melhores quarenta minutos de entretenimento musical do ano.

in Clip (Diário de Aveiro), 25 Novembro 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

DR SALAZAR

«Lápis Azul»
(edição de autor) [7/10]

Caso curioso no rock pesado nacional, os Dr Salazar estão prestes a completar os primeiros dez anos de uma carreira marcada tanto pela teimosia em persistir num caminho deveras singular na música de intervenção, como pelas alegadas dificuldades que a postura polémica lhes tem causado. Depois dum interregno de quatro anos, o grupo está de regresso com um álbum que remete desde logo para o universo histórico da ditadura salazarista, temática que sempre foi, por assim dizer, a raison d’etre do colectivo da Amadora, mas que já surge aqui em dose mais moderada. “Lápis Azul” conta com dez novos temas de hard rock acutilante e musculado, com alguns riffs de recorte industrial e apontamentos bem colocados de sintetizadores que conferem um leve toque sci-fi. A progressão em relação ao álbum anterior, “Antes & Depois”, acusa um vago amadurecimento que é patente quer nos temas com refrães contagiosos que incitam a acompanhar, como “Aqui d’hell rei” e a faixa-título, quer noutros, mais contidos, como é o caso de “Erupções”. Contudo, o disco também tem momentos que não parecem funcionar muito bem. Por exemplo, há segmentos em “Casos” e em “Todos querem falar”, onde o texto declamado pelo Manuel d’Albuquerque, ou é desprovido de qualquer musicalidade, ou está em completa dissonância com a restante sonoridade, surgindo forçado e anacrónico no contexto. Trata-se de um arranhar de ouvido que não é novidade nos Dr Salazar, mas que surpreende mais por se tratar do segundo álbum.

in Clip (Diário de Aveiro), 11 Novembro 2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

ALLEGAEON

«Fragments of Form and Function»
(Metal Blade, 2010) [7/10]

As primeiras impressões sugerem que estamos perante mais uma proposta de death melódico de expressão hardcore, o género que a Metal Blade decidiu abraçar de forma quase obsessiva desde há alguns anos para cá. Mas uma audição atenta revela que há aqui algo um pouco mais excitante do que isso. E isso resume-se basicamente ao produto artístico de dois guitarristas fenomenais – Ryan Glisan e Greg Burgess –, que nos brindam aqui com um festival incessante de rodopios melódicos e acrobacias alucinantes nas seis cordas, a par de solos brilhantes bem ao estilo de um Malmsteen. Tudo isto executado sobre uma muralha rítmica esmagadora, com blast beats de perfurar tímpanos a invocar imagens de bulldozers em marcha desenfreada. Os riffs encorpados remetem por vezes para os Nevermore, e a abordagem técnica é análoga à dos Revocation. Os melhores temas têm qualquer coisa de progressivo, como é o caso de “The god particle”, um dos mais aditivos, “Accelerated evolution”, com a sua prolongada sequência instrumental, e “Across the folded line” que sobressai também pelo refrão contagiante. Mas muitas faixas também passam sem deixar qualquer marca. Além disso, o desempenho vocal de Ezra Haynes não está ao nível da exibição dos restantes músicos, e sente-se a falta de aspectos musicais mais distintos que substituam os traços do ubíquo e desgastado death ao estilo sueco que espreita a cada passo. Apesar de tudo, esta é sem dúvida uma estreia impressionante duma jovem formação norte-americana com muito potencial para materializar.

in Clip (Diário de Aveiro), 4 Novembro 2010

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

LANTLÔS

«.neon»
(Prophecy Productions, 2010) [9.5/10]

Entre os grandes lançamentos a registar em 2010, «.neon» é uma daquelas raras peças de arte com o dom de nos fazer transcender o mundano; um trabalho com tanto de fascinante como de perturbador, que combina mantras post-rock de riffs lentos e introspectivos, tiradas furiosas de um black metal atmosférico carregado de emoção, e segmentos tranquilos onde o jogo de bateria e baixo (com algum piano de permeio) projecta uma atmosfera deliciosamente jazzy. O vocalista Neige (Alcest) apresenta aqui uma performance de apertar o coração, e chega até a ser arrepiante a convicção que coloca nas manifestações mais desesperadas (sintam a expressividade de «These nights were ours», onde o homem quase esganiça). O seu registo natural (aqui, pouco frequente) em «Pulse/surreal» veicula candura, e aproxima-se, curiosamente, do tom aveludado da diva da soul Sade Adu (!). Depois da estreia pouco promissora oferecida num rudimentar homónimo lançado em 2008, parece que Herbst, o multi-instrumentista germânico responsável por este projecto, acaba de reinventar os Lantlôs, sendo Neige uma das peças essenciais desse sucesso. Dessa reinvenção resultou um álbum perfeitamente equilibrado, com uma construção tão sublime que é capaz de fazer eriçar o cabelo da nuca; um disco mágico que toca no mais intimo que há em nós e em que o todo excede sempre a soma de cada uma das partes. Desliguem-se por um momento das vossas vidinhas rotineiras, baixem as luzes, e deixem-se embarcar nesta experiência quase religiosa que é «.neon».

in Clip (Diário de Aveiro), 4 Novembro 2010

sábado, 23 de outubro de 2010

DEMONIC RESURRECTION

«The Return to Darkness»
(Candlelight, 2010) [8/10]

Quem teve a oportunidade de ver o documentário “Global Metal”, de Sam Dunn, deve estar pelo menos vagamente familiarizado com o nome Demonic Resurrection, um dos colectivos mais activos da florescente cena metal na India. Contando já com uma década de existência, tornaram-se recentemente na primeira banda daquele ponto do globo a assinar por uma editora ocidental de peso, e a romper fronteiras com este novo registo de originais. O que fazem é basicamente um black metal sinfónico, colado por vezes a Dimmu Borgir, com nuances de Cradle of Filth, mas que reverte frequentemente para outros modos de operação mais em linha com o death e o progressivo, e até com tiques ocasionais de power metal. Tirando o melhor partido desta sopa de influências, a formação de Bombaim apresenta um trabalho sólido e fluente, que impressiona pela musicalidade ao longo dos sessenta e tal minutos da sua duração. Individualmente, há que destacar o líder do grupo, Sahil Makhija, pela manifesta versatilidade vocal, bem como a excelente prestação do guitarrista solo de descendência portuguesa, Daniel Rego. Por outro lado, o disco soa também demasiadamente calculado e previsível. Para um grupo já no terceiro álbum seria de esperar pelo menos algum arrojo para além dos padrões explorados e seguros, já para não falar de alguma infusão de motivos locais capazes de conferir à sonoridade uma identidade distinta. De qualquer modo, este é um álbum interessante, duma banda com um talento inquestionável que vale a pena manter debaixo de olho.

in Clip (Diário de Aveiro), 21 Outubro 2010

sábado, 16 de outubro de 2010

DECREPIT BIRTH

«Polarity»
(Massacre Records, 2010) [8.5/10]
Os fanáticos de desafios mentais extremos do tipo que é habitualmente proporcionado por bandas como Psycroptic, The Faceless e Obscura, têm aqui mais um puzzle sónico para lhes dar a volta ao miolo. Os autores deste puzzle de death brutal e extraordinariamente técnico, já deram mostras do que eram capazes, em 2008, com o estonteante «Diminishing Between Worlds». Contudo, de lá para cá, a progressão foi notável. Reduzindo um ou dois furos na complexidade da composição e deixando mais espaço para a música respirar entre as barragens de riffs demolidores, a banda norte americana criou com «Polarity» um trabalho relativamente mais fácil de acompanhar e com detalhes mais distintos. Com uma execução prodigiosa de todos os instrumentos, as referências aos pergaminhos do saudoso Chuck Schuldiner são agora especialmente notórias no estilo de leads virtuosos que irrompem constantemente entre mutações rítmicas tresloucadas. Embora os andamentos sejam quase sempre a abrir e o pedal duplo a mil à hora não dê tréguas, não há aquela obsessão doentia pelo martelanço enfadonho que persiste em muito death metal. As faixas são também mais curtas do que o habitual (metade delas não passa dos três minutos), incorporando, ainda assim, mais ideias atractivas e pormenores de encher o ouvido, do que aquelas que muitas formações do género conseguem apresentar no dobro do tempo. E no fim resta ainda substância em quantidade suficiente para obrigar a umas quantas visitas à vitrola, até conseguirmos desenredar a maior parte da meada sonora.

in Clip (Diário de Aveiro), 14 Outubro 2010

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

WATAIN

«Lawless Darkness»
(Season of Mist, 2010) [8.5/10]

Se «Sworn to the Dark», o álbum anterior dos Watain, soou como uma colagem estilística evidente mas ainda assim bem-vinda a bandas como Dissection e Dawn, o mesmo já não se poderá dizer deste novo registo de estúdio. O que não é propriamente motivo para alarme: os fãs daquelas magníficas melodias desoladas celebrizadas pela banda do malogrado Jon Nordveit, podem dormir descansados pois estas continuam a surgir aqui no seu melhor por entre riffs old-school, embora de uma forma mais subtil. Mas embora dependa muito menos desses elementos, o que se salienta em «Lawless Darkness» é o arsenal de influências thrash e heavy tradicional que o trio sueco recupera do seu passado remoto, traduzindo-as em malhas tão inesperadas que por vezes nos esquecemos que estamos a ouvir uma banda de black metal. É o que acontece de forma notória no ambicioso “Waters of Ain”, em especial naquele grande final apoteótico, bem como nos leads de “Total funeral”. Outros temas dignos de nota são os brilhantes “Hymn to Qayin” e “Kiss of death”, estes sem solos, e mais em linha com o que ouvimos do colectivo de Uppsala nos dois discos anteriores. Apesar de modesto no que toca a aspectos de originalidade, este quarto longa duração ganha pelo nível superior de composição que exibe, tanto nas passagens melódicas de beleza diabólica, como nos segmentos mais furiosamente punitivos. Liricamente, não há surpresas: este é mais um monumento erigido às forças da escuridão, com uma intensidade blasfema suficiente para pulverizar de um sopro meia dúzia de congregações religiosas.

in Clip (Diário de Aveiro), 2 Setembro 2010

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

NACHTMYSTIUM

«Addicts: Black Meddle pt.2»
(Candlelight, 2010) [9/10]

Um álbum invulgar, sem dúvida, tendo em conta o meio extremo em que se insere, mas que não surpreende face ao percurso artístico da banda em causa. De facto, depois do alucinogénio «Assassins», a opção por uma abordagem menos psicadélica e mais rock‘n’roll patente neste segundo tomo de «Black Meddle», soa até como um seguimento natural. Da estética extrema do black metal que moldou originalmente o colectivo norte-americano, resta agora pouco mais do que a voz rouca do líder Blake Judd, bem como um som caracteristicamente sujo que, na verdade, joga muito a favor do hard-rock retro que pauta mais de metade dos temas. Na sua maior parte «Addicts» é um álbum cheio de composições padronizadas mas plenas de balanço, com refrães apunkalhados que não nos saem mais da cabeça, e ganchos que soam bizarros de tão catchy, havendo até espaço para alguns devaneios pop. Aquele loop incessantemente ondulante em «No funeral» fica para a posteridade como um das ideias mais desconcertantes em todo o álbum. E os solos muito vintage saídos das seis cordas dos convidados Matt Johnson (Pharaoh) e do ex-Pentagram Russ Strahan conjuram da melhor maneira o espírito revivalista que a banda pretende invocar. À primeira impressão, «Addicts» poderá soar como uma incursão excessiva em universos distantes, mas no fim a sensação que perdura é a de uma combinação muito bem conseguida entre o rock/punk dos 70s e a crueza típica das sonoridades mais negras do metal.

in Clip (Diário de Aveiro), 5 Agosto 2010

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

VOA2010

Lagoa de Calvão, 6 & 7 de Agosto

Depois de uma estreia em 2009 com um cartaz preenchido por alguns dos nomes mais sonantes da música extrema, o Vagos Open Air volta a impor-se pela magnífica selecção de bandas convidadas. Entre estreias absolutas, regressos há muito desejados, e uma amostra do melhor que o underground nacional tem para oferecer, esta é uma 2º edição decididamente feita à medida de um leque alargado de preferências.

CARCASS
Aproveitando o reagrupamento da histórica banda de Jeff Walker, Bill Steer e Michael Amott, esta é sem dúvida uma das apostas mais oportunas do festival. No final da década de 80 injectaram sangue e entranhas na brutalidade sónica do death metal, tornando-se na referência principal para os fanáticos das vertentes doentias do gore e splatter que lhes sucederam. Em 1993 estiveram por cá a promover o álbum «Heartwork», e regressam agora, revitalizados, para mostrar que velhas… são as carcaças.

MESHUGGAH
Ao fim de 23 anos de actividade, aqui está, finalmente, a muito aguardada estreia absoluta em solo português. Mestres incontestados dos riffs sincopados, os Meshuggah já há muito que entraram para a história do metal, fruto de uma personalidade sónica vincada, e de um talento inato para a inovação rítmica. Formados por autênticos músicos-prodígio, a banda sueca é responsável por registos que entretanto viraram clássicos, tendo assinado recentemente «ObZen», o 6º longa duração que vendeu, só na semana a seguir ao lançamento, quase doze mil cópias.

MY DYING BRIDE
Pioneiros no híbrido death/doom, os My Dying Bride são conhecidos por transformar como ninguém os recantos mais sombrios das emoções humanas em performances apaixonantes de música e poesia com tanto de sublime como de avassalador. Quem conhece minimamente o repertório absolutamente incontornável do colectivo britânico, sabe que esta se adivinha certamente uma das actuações mais marcantes do Vagos deste ano.

AMORPHIS
Estiveram por cá há 15 anos a promover «Tales from the Thousand Lakes», um dos discos mais inovadores da década de 90 na área do death metal, que de uma assentada transformou estes finlandeses num dos nomes mais reverenciados do underground. Embora com o passar dos anos a banda tenha progredido no sentido de estéticas mais acessíveis, a sua produção musical manteve-se sempre interessante, como o comprova o recente «Skyforger».

KAMELOT
Apesar do modesto início de carreira em meados dos 90s, os norte-americanos Kamelot são actualmente um dos grandes baluartes do power metal sinfónico, com uma discografia que inclui vários álbuns considerados de culto entre os fãs. Nesta que é (pelo menos) a terceira visita a Portugal da formação de Thomas Youngblood, espera-se um set recheado com muitos temas do sucessor de «Ghost Opera», a editar em Setembro.

ENSIFERUM
Mais um de entre o contingente finlandês de grupos a desfilar no palco do Vagos, os Ensiferum trazem na bagagem ainda fresco o novo álbum «From Afar». Considerado em alguns quadrantes como o trabalho mais bombástico de sempre de Markus Toivonen e companhia, este quarto registo constitui também a melhor amostra do estilo de viking metal, veloz e furioso (e com solos magníficos), que sempre foi a imagem de marca do colectivo.

THE FIRSTBORN
Apesar de contar já com dois anos desde que foi lançado, «The Noble Search» ainda se mantém bem vivo na memória colectiva, tal foi a impressão que causou. Para os The Firstborn foi o culminar de um percurso pautado por uma constante renovação artística, que os distinguiu pelo conceito original de música extrema com pinceladas étnicas e influências budistas. Quem os viu ao vivo diz que são tão espantosos como no disco.

GWYDION
Fazem um misto de folk e viking metal ao estilo nórdico e são já bem conhecidos pelas suas contagiantes actuações ao vivo. Dois anos depois do primeiro grito de guerra a que chamaram «Ŷnys Mön» e da feroz invasão europeia que protagonizaram logo a seguir, o clã de Lisboa acaba de regressar com «Horn Triskelion», uma nova colecção de cânticos bárbaros que prometem fazer correr a cerveja e gerar muita animação nas hostes do Vagos.

Ghost Brigade, Oblique Rain, Miss Lava e Prayers of Sanity são os restantes nomes a reter do luxuoso elenco do Vagos Open Air 2010.

in Clip (Diário de Aveiro) 29 Julho 2010

segunda-feira, 19 de julho de 2010

IHSAHN

«After»
(Candlelight, 2010) [9.5/10]

Depois do lançamento de «After» já não restarão dúvidas de que o trabalho a solo de Ihsahn, tomado no seu conjunto, é hoje tão apelativo e relevante como o foram no passado os melhores álbuns dos Emperor. Concluindo uma suposta trilogia iniciada em 2006 com «The Adversary» e continuada em 2008 com «Angl», o músico norueguês acaba de nos brindar com um trabalho que preserva traços do vanguardismo cultivado até aqui, mas que se distingue fundamentalmente pelo ênfase nos aspectos mais progressivos e pela utilização do saxofone, não como mero elemento de arranjo, mas antes como instrumento de primeiro plano que irrompe frequentemente com magníficos fraseados melódicos ou numa abordagem mais free jazz. Com uma execução superior de Jorgen Munkeby, dos Shining, é mesmo caso para dizer que nunca o saxofone soou tão bem num contexto de metal extremo. Embora alguns dos temas remetam ainda para a composição angular do disco anterior, este é, em geral, um álbum de parâmetros mais ortodoxos, o que, a par dos refrães contagiantes entoados na voz plácida de Ihsahn (que se sobrepõem amiúde ao seu inconfundível registo abrasivo), concorre para fazer deste o trabalho mais acessível do ex-Emperor. Mas «After» não é um disco simplista, muito pelo contrário. Resultado duma criatividade no seu auge e enriquecido uma vez mais pela secção rítmica genial dos Spiral Architect: Lars Norberg (baixo) e Asgeir Mickelson (bateria), «After» constitui uma realização assombrosa, vibrante de musicalidade de fio a pavio, que tem tudo para resistir ao teste mais exigente: o do tempo.

in Clip (Diário de Aveiro), 8 Julho 2010

sábado, 3 de julho de 2010

AVULSED

«Nullo (The Pleasure of Self-Mutilation)»
(Xtreem Music, 2009) [7/10]

Viciados desde há vinte anos para cá na forma mais perversa de cacofonia alguma vez engendrada pela mente humana, estão de regresso com mais uma dose mortífera de death metal capaz de provocar a declaração de um estado de emergência. Se o demolidor «Gorespattered Suicide» injectou alguma extravagância no reportório essencialmente tradicional da banda Madrilena, então este quinto de originais soa a algo mais back to the basics. Passado o festival de agressão sem quartel das primeiras quatro faixas, o disco entra no seu melhor com arremedos infernais de thrash, riffs esmagadores e malhas impiedosas que agarram o ouvinte pelas partes mais sagradas. As mudanças súbitas de andamento de «Nazino (cannibal hell)» e as malhas infecciosas de «Penectomia» fazem destes os temas mais salientes de «Nullo». Também de destacar é a prestação fabulosa do (ainda) novo baterista Riky, bem como os leads melódicos que Cabra e Juancar arrancam das seis cordas, criando um contraste bem-vindo com o massacre sónico da secção rítmica. O rugido cavernoso e os berros doentios do carismático Dave Rotten traduzem da melhor maneira as temáticas depravadas de gore, mutilação e perversão sexual, as quais se reúnem em «She’s hot tonight (in my oven)» para criar um dos melhores momentos de humor negro do álbum. Longe do melhor absoluto dos Avulsed – que têm ainda em «Stabwound Orgasm» o seu ex-libris -, e talvez até uns furos abaixo do álbum anterior, este é definitivamente um dos discos mais directos da banda espanhola. Death brutal na sua forma mais básica e genérica. Só para fãs.
in Clip (Diário de Aveiro), 8 Julho 2010

domingo, 27 de junho de 2010

PLAYLIST

Ou o que tem andado a girar recentemente na vitrola

ALCEST
«Percées de Lumière»
Poucos são os temas de black metal capazes de sugerir uma sensação positiva de serenidade como este, incluído em «Écailles de Lunes». Os Agalloch e os Novembre apenas se aproximaram deste resultado. Mas Neige parece ter descoberto a harmonia perfeita entre a agressividade natural do estilo e a tranquilidade de sonoridades límpidas que pouco ficam a dever ao Metal. Se tivesse que escolher agora a melhor música de 2010, esta seria uma séria candidata.

COBALT
«Arsonry»
Intercalando passagens furiosamente devastadoras com momentos opressivos de pulsação tribal, este constitui provavelmente um dos melhores momentos de «Gin», o álbum mais recente da dupla Erik Wunder / Phil McSorley, que nos agraciou em 2007 com o colossal «Eater of Birds». Apesar deste terceiro registo ficar uns furos abaixo, o simples acto de sermos fustigados por semelhante híbrido de black/thrash e post-hardcore mal intencionado, é sempre uma experiência única.

DARGAARD
«Thy Fleeing Time»
É um das peças mais salientes de «The Dissolution of Eternity», o álbum de 2001 desta banda austríaca, que já anda no meu leitor de mp3 há algum tempo. A sonoridade é toda pomposa, mas as melodias neoclássicas e a atmosfera imponente veiculam sempre uma profundidade de sentimento que é no mínimo comovente. E neste tema em particular a voz de Elizabeth Torizer soa como se nos chegasse de uma outra dimensão. O que será feito do Sr. Tharen e dos Dargaard?

DEATH ANGEL
«The Ultra-Violence»
Conta já com uns respeitáveis 23 anos de idade e é talvez o melhor instrumental thrash de sempre. Incluído no álbum de estreia homónimo da banda de São Francisco, é um tema com uma composição incrivelmente sofisticada para o seu tempo, que os Death Angel não mais ousaram igualar. Ao todo são dez minutos de riffs electrizantes e solos esmifrados, que ainda hoje acompanho como um doido na minha air-guitar!

IMMOLATION
«A Glorious Epoch»
Depois dum álbum relativamente pobre em termos de inspiração como foi «Shadows in the Light», é bom saber que uma das minhas bandas favoritas da zona mais brutal do espectro está de volta ao seu melhor. Mais do que um vulgar massacre sónico, «Majesty and Decay», do qual este «Glorious epoch» é a melhor amostra, desbrava caminhos sombrios ainda não palmilhados pela banda americana, e é o combustível ideal para o fogo do nosso lado mais negativo.

TRIPTYKON
«Descendant»
Continua a gerar ondas de choque um pouco por todo o lado, não só porque é mais uma infame criação do venerável Tom Gabriel “Warrior”, mas também porque é impossível ficar indiferente à atmosfera opressiva e abissal e ao peso esmagador omnipresente em «Eparistera Daimones». Em toada lenta e desolada, num estilo venenoso que se confunde com o dos extintos Celtic Frost, «Descendent» é um dos vários temas memoráveis deste álbum. A tirada fulminante no minuto final é impagável.

(brevemente) in Versus Magazine

terça-feira, 15 de junho de 2010

ANTARES PREDATOR

«Twilight of the Apocalypse»
(Battlegod Productions, 2010) [6/10]

Poucas bandas se podem gabar de apresentar um álbum tão variado em termos de estilos e influências como os Antares Predator. Entre doses mortíferas de blast beats, riffs galopantes e curtos segmentos sinfónicos de metais, o colectivo norueguês desfia aqui malhas thrash a puxar para o death metal mais técnico, momentos de black metal que soam umas vezes a Dimmu Borgir, outras a Satyricon e outras ainda a Emperor. Quando a coisa fica mesmo preta, como acontece no esmagador «Mark 13» que rola a umas alucinantes 260bpm, aí as referências óbvias apontam para Marduk ou Dark Funeral. Portanto já se está a mesmo ver: o disco tem inegavelmente os seus momentos, mas encosta-se despudoradamente a tudo e mais alguma coisa. As orquestrações sampladas, bem colocadas, e o trabalho rítmico criativo, acabam por constituir os elementos mais atractivos. Contudo, «Twilight of the Apocalypse» acaba por não funcionar, em grande medida devido a uma composição pobre, uma dinâmica reduzida, um som demasiado cru e mecanizado, e um trabalho quase inexistente de guitarra solo. O resultado final redunda numa salgalhada muito insípida que acaba por deixar para trás pouco mais do que uma sensação de indiferença. E o que é mais surpreendente é que semelhante estreia sofrível não nos chega das mãos de principiantes, mas de músicos competentes e supostos artistas com créditos firmados como sejam o ex-Keep of Kalessin Øyvind Winther (guit.) e o ex-baterista dos Belphegor, Jan “Blastphemer”. Enfim, há coisas que não deviam acontecer.

in CLIP (Diário de Aveiro), 11 Junho 2010

sábado, 29 de maio de 2010

GWYDION

«Horne Triskelion»
(Trollzorn Records, 2010) [7/10]

Embora a colonização Viking dos séculos VIII a XI não se tenha alastrado até à nossa costa, o imaginário aventureiro destes bárbaros do norte já há muito que conquistou a praia dos portugueses Gwydion. Este segundo álbum irá certamente agradar aos incondicionais do folk metal nórdico ao estilo de bandas como Finntroll, Tyr e Turisas, com as suas melodias ora sumptuosas ora festivas, conduzidas por teclados ou instrumentos tradicionais sobre uma secção rítmica possante, e com os habituais coros masculinos taberneiros a invocar sempre imagens de guerreiros ébrios a agitar canecas de cerveja. É impossível ficar indiferente a temas como “From Hel to Asgard”, “Triskelion horde is nigh” ou mesmo “Ofiússa (A terra das serpentes)”, com os seus contornos sinfónicos, vozes femininas muito bem colocadas e até uma breve passagem cantada em português. A evolução registada em relação a “Ynys Mön”, o primeiro álbum, é notória, tanto do ponto de vista da composição, cujos meandros a banda parece já dominar com alguma maturidade, como no departamento sonoro, com a mistura entregue desta vez a Børge Finstad (Mayhem, Enslaved), com resultados a roçar o excelente. O único aspecto menos abonatório a apontar ao colectivo de Lisboa é mesmo a excessiva colagem ao folk folgazão tão característico das bandas supra citadas e, em particular, a algumas melodias ou acordes que parecem já recorrentes no género. Como não se trata de falta de talento ficamos à espera de ver adicionado à música dos Gwydion um cunho mais pessoal que os torne distintos num estilo já de si bastante concorrido.

in CLIP (Diário de Aveiro), 27 Maio 2010

sexta-feira, 21 de maio de 2010

ACRASSICAUDA

«Only the Dead see the end of the War»
(Vice Records, 2010) [6.5/10]

Só o facto de serem provenientes da Bagdad do período pós Saddam, e de contarem com o orgulho de metalheads uma história de perseguição e ameaças de morte que os levou a exilarem-se primeiro na Síria, depois na Turquia e, por fim, já longe da demência islâmica, em Brooklyn, Nova York, deve ser suficiente para reconhecermos nestes iraquianos, a perseverança e os tomates que nós, ocidentais, com os nossos pequenos caprichos, nem sonhávamos ser possível. Mais do que qualquer banda de heavy metal, os Acrassicauda experimentaram, até meados de 2008, uma vivência literalmente “heavy metal”, e este primeiro trabalho, gravado já nos Estados Unidos, é disso um testemunho vívido. Produzido por Alex Skolnick (Testament) e fortemente influenciado pelos ícones do thrash que lhes serviram de inspiração desde o primeiro dia, o EP abre incisivo com “Message from Baghdad”, cujas malhas remetem desde logo para os Metallica dos 80s, ou mesmo para os Sepultura da fase “Arise”. O tema seguinte, “Garden of stones”, já aparece tingido de linhas melódicas e percussões do Médio Oriente, incluindo também alguns leads de se lhe tirar o chapéu. “Massacre” salienta-se pela raiva e desespero que os seus versos canalizam, e pelo tom vocal de Faisal Talal que nos obriga a recuar aos melhores momentos de James Hetfield. “The unknown” termina com mais meia dúzia de riffs encorpados e galopantes, daqueles que têm o estranho poder de induzir uma desenfreada agitação de cabeças. Depois do retrato heróico apresentado em “Heavy Metal in Baghdad”, aqui fica o imprescindível depoimento áudio dos Acrassicauda.

in CLIP (Diário de Aveiro), 20 Maio 2010