segunda-feira, 20 de junho de 2011

NECROPHOBIC

«Darkside»
(Hammerheart Records, 2011) [8.5/10]

Aquando do seu lançamento original, em 1997, valeu aos Necrophobic algumas duras criticas que os acusaram de terem abraçado uma moda então em franca ascensão: a do black/death melódico ao bom estilo dos compatriotas Dissection. Mas a verdade é que catorze anos depois este disco permanece como uma das melhores amostras dessa época de ouro pela qual o género atravessou, ilustrando ao mesmo tempo uma das fases mais criativas de sempre do grupo sueco. Quem não teve ainda o privilégio de ouvir esta admirável conjugação de bestialidade e beleza, tem aqui uma segunda oportunidade.

in Clip (Diário de Aveiro), 2 Junho 2011

FURIA

«Halny»
(Pagan Records, 2010) [8/10]

Autêntica pedrada no charco do metal formatado segundo regras e sonoridades de manual, «Halny» aglutina num só tema de 20 minutos, momentos tranquilos e psicadélicos resultantes de aparente improvisação (e reminiscentes, por vezes, dos Pan-Thy-Monium de Dan Swano), com sequências recorrentes típicas de rock pesado de tendências progressivas. O espírito é todo experimental e não tem rigorosamente nada que ver com o black metal que orientou a banda polaca até aqui, embora mantenha a produção caracteristicamente crua do estilo. Vale a pena descobrir.

in Clip (Diário de Aveiro), 2 Junho 2011

domingo, 29 de maio de 2011

MACABRE

«Grim Scary Tales»
(Hammerheart Records, 2011) [8 /10]

Depois de vinte e sete anos dedicados por inteiro a contar os feitos repugnantes dos mais notáveis assassinos psicopatas da história, os Macabre já mereciam, pelo menos, a atribuição de um doutoramento honoris causa num qualquer ramo da criminologia. Constituídos desde o primeiro dia por Corporate Death (guitarra, voz), Nefarious (baixo) e Dennis the Menace (bateria), o colectivo norte-americano é conhecido pelo seu característico ‘murder metal’, designação cunhada por eles próprios que se traduz numa estranha mescla de death, thrash e grind, com incursões frequentes em territórios estranhos ao metal, mas que funcionam bem e tendem a reforçar o humor negro das rimas jocosas que cantam. Esta é uma descrição particularmente adequada a este quinto registo de originais, um álbum um pouco menos extremo e mais apostado numa grande variedade desses tais elementos inusitados, que passam, por exemplo, pelo corridinho em estilo country de “The bloody Benders”, interpretado com um cómico sotaque sulista, pela trágica mas irresistível melodia de “Mary Ann”, pela lenga-lenga infantil de “Lizzy Borden” e pelos vocais operáticos em “Nero’s inferno”. Incluindo uma brilhante interpretação de “Countess Bathory”, original dos Venom, e especialmente concentrado desta vez nas atrocidades sangrentas de alguns dos mais infames serial killers de finais do séc. XIX, (cuidadosamente tratados na devida ordem cronológica) «Grim Scary Tales» é não só um inequívoco manifesto de talento do trio de Chicago mas, mais importante, um álbum divertido que promete arrancar mais do que alguns sorrisos.

in Clip (Diário de Aveiro), 26 Maio 2011

PURGATORY

«Necronataeon»
(War Anthem Records, 2011) [6.5/10]

«Necronataeon» é uma daquelas violentas tareias sónicas infligidas sem misericórdia e à boa moda antiga por uma metralha brutal e hiper rápida de death metal, ferozmente cuspida com tanto de convicção como de competência. Mas é uma tareia que não deixa cicatrizes para recordar. Com excepção do rugido arrancado das entranhas de um front-man que lembra Jan-Chris (Gorefest) e de alguns raros momentos que nos fazem levantar a cabeça, este é um disco de malhas mastigadas que, na sua maior parte, gritam monotonia e estagnação.

in Clip (Diário de Aveiro), 18 Maio 2011

PRIMORDIAL MELODY

«In Cold Blood Nihilism»
(edição de autor, 2010) [7/10]

Depois do ambicioso demo-CD «Critical Chaos», lançado em 2008, é com alguma surpresa que vejo os Primordial Melody (ou Primel, na sua habitual abreviatura) a reverterem, neste EP de estreia, para um estilo de death/thrash bastante mais objectivo e padronizado. É certo que se tratam de cinco temas executados com tudo no sítio, com malhas irresistíveis q.b. e uma sonoridade bem trabalhada, contudo esta abordagem mais directa acabou por transformar a formação de Chaves em mais uma entre a imensidão de bandas congéneres, afastando-os ao mesmo tempo dum caminho que parecia bem mais promissor.

in Clip (Diário de Aveiro), 18 Maio 2011

sexta-feira, 22 de abril de 2011

HAEIRESIS

«Transparent Vibrant Shadows»
(Inferna Profundus/Neo:Torment/Frenteuropa Records, 2011) [8/10]

Projecto a solo com origem na Lituânia, propõe neste álbum de estreia um interessante concentrado de black metal que junta tendências convencionais a algum do melhor vanguardismo do estilo. No lado mais tradicional sobressaem as influências de Emperor e Mayhem, nas suas respectivas encarnações mais recentes. Depois há toda uma componente industrial e dark ambient com referências sónicas que apontam para nomes de relevo desses quadrantes, como Aborym e sobretudo The Axis of Perdition. Aliás, não será por acaso que o disco conta com a participação de Brooke Johnson, o mentor dos Axis, em metade dos temas. O carácter industrial deve-se essencialmente à excelente percussão caracteristicamente maquinal e ao registo distorcido de voz em jeito de andróide maléfico do multi-instrumentista S.B. que me faz recuar ao tempo dos nossos saudosos Thormenthor. A uma abordagem já familiar de black metal a banda adiciona algumas mais-valias tais como padrões rítmicos complexos, acordes desarmónicos e linhas melódicas abstractas – tudo isto sem comprometer a estrutura das canções – o que faz desta uma proposta exigente e com o seu quê de refrescante. Com os melhores momentos guardados para o fim do disco na forma de faixas como “Surreale” e “Emptyroom”, «Transparent Vibrant Shadows» congrega todos os elementos para retratar com sucesso o ambiente frio e fantasmagórico de um asilo em ruínas (bem ilustrado no artwork), constituindo ao mesmo tempo uma experiência compensadora para quem procura alternativas mais futuristas nas vertentes extremas do metal.

in Clip (Diário de Aveiro), 14 Abril 2011

quarta-feira, 13 de abril de 2011

THE PROJECT HATE MCMXCIX

«Bleeding the New Apocalypse (Cum Victriciis in Manibus Armis)» (Season of Mist, 2011) [8.5/10]


Há uma grande diferença entre este e os discos anteriores dos TPH e essa diferença chama-se Ruby Roque. A ex-vocalista dos portugueses Witchbreed, que agora faz parte do grupo sueco em apreço, é efectivamente a principal responsável pelo afastamento dos TPH dum paradigma vocal já gasto: o duelo, celebrizado em muito gothic/death, entre voz feminina angelical e growler cavernoso. É que, contrariamente ao tom ingénuo e frágil da anterior Jonna Enckell, a voz de Ruby molda-se segundo o estilo tradicional de vocalistas como Kate French (Chastain), com um registo poderoso e de grande dinâmica, que se impõem de forma autoritária mesmo na presença de um monstro como Jörgen Sandström. O facto de Ruby cantar quase sempre em notas altas e segundo linhas melódicas distintas, é um aspecto que pode dificultar a assimilação da mudança. No entanto, ao fim de meia dúzia de audições tudo parece encaixar na perfeição. Musicalmente este é mais um passo de sucesso no sentido do aperfeiçoamento do cocktail único que Lord K Philipson tem vindo a desenvolver desde 1998, e que congrega, em longos épicos de 9 a 13’, as sonoridades extremas do death metal com passagens electrónicas e industriais, numa simbiose quase perfeita de brutalidade e beleza maquinal. Enriquecido uma vez mais pelos fantásticos solos de Mike Wead (King Diamond), pela voz de Christian Alvestam e, desta vez, pelo mítico Leif Edling (Candlemass), «Bleeding...» só peca pelo tremendo deja vu causado pela peça de manual didáctico que é o riff de abertura. Contudo é uma falsa partida que fica mais do que compensada pelo que vem a seguir.

in Clip (Diário de Aveiro), 24 Março 2011

CRUSHING SUN

«Tao» (Major Label Industries, 2010) [8/10]
Esqueçam o que ouviram em 2008 no split com os EAK, pois estes são os novos Crushing Sun. Em lugar de rajadas disparadas em todas as direcções, o que o colectivo apresenta agora é um metal moderno e vigoroso, mais contido na agressão, mas que não prescinde da sua dose letal de riffs death. Mais importante é sem dúvida a nova abertura a um espectro de influências mais alargado – que não compromete a coerência do todo – bem como a admirável progressão na qualidade das composições. Uma das boas surpresas nacionais do ano.

in Clip (Diário de Aveiro), 10 Março 2011

MORBID CARNAGE

«Night Assassins» (Pulverised Records, 2010) [6.5/10]
Apesar de não estarmos certamente perante uns Evile ou uns Pitch Black, e de já não haver pachorra para esta imagem estafada de machões violentos e acéfalos, há que reconhecer nestes húngaros alguma capacidade para reavivar o entusiasmo pelo velho thrash metal. Sem surpresas, «Night Assassins» é uma torneira aberta de malhas sujas e rasgadas, energicamente articuladas por uma maquinaria infernal bem oleada, que nos transporta até às glórias dos 80s protagonizadas por lendas como Slayer e Kreator. Uma estreia decente, mas só para fanáticos do género.

in Clip (Diário de Aveiro), 10 Março 2011

sábado, 5 de março de 2011

DEATHSPELL OMEGA

«Paracletus»
(Norma Evangelium Diaboli/Season of Mist, 2010) [8/10]

Quando Dante descreveu a verdadeira arte como algo que é cruel por definição, bem podia ter em mente o equivalente do séc. XIV ao trabalho produzido nos últimos sete anos pelos Deathspell Omega. Desde que gravaram «Si Monumentum Requires, Circumspice», em 2004, o nome do obscuro trio gaulês passou a ficar associado a uma aterradora e original metamorfose de black metal, de composição torcida e sonoridade malévola, capaz de nos transportar até ao limiar de mundos infernais e sub-humanos. Este quinto registo de originais continua na senda avantgarde das estruturas irregulares e ultra-complexas do anterior «Faz-Ite, Maledicti, in Ignem Aeternum», mas apresenta-se mais cravejado de dissonâncias e menos caótico, chegando até ao ponto de soar melódico (!). Mas não se iludam: «Paracletus» é feio e perturbador. As blast-beats são particularmente violentas e mesmo os momentos tranquilos não produzem qualquer sensação de conforto. O vozeirão assustador de Mikko Aspa continua a dominar a actuação mas desta vez as lucubrações altamente intelectuais e metafísicas sobre o Homem e a sua relação com o divino/maligno são também proferidas, pontualmente, noutros registos vocais, e não apenas em inglês. Indiscutivelmente, este é o álbum que melhor implementa o ideal sónico que a banda começou a desenvolver em «Si Monumentum…». No entanto, é também evidente que lhe falta qualquer coisa para criar um impacto duradouro que persista para além da última faixa. Excessivamente dissonante? Anacrónico? Qualquer que seja a resposta, este é, sem dúvida, um disco só para quem procura desafios muito arriscados.

in Clip (Diário de Aveiro), 3 Março 2011

THULCANDRA

«Fallen Angel’s Dominion»
(Napalm Records) [6/10]

Pelos vistos Steffen Kummerer, dos Obscura, é tão doente pelos Dissection que montou, com a ajuda de alguns amigos, este projecto com o intuito de fazer algo “inspirado” na banda de Jon Nodtveidt. Pena é que a mão lhe tenha escorregado e a alegada inspiração tenha dado lugar a uma cópia a papel químico do estilo característico da histórica formação sueca. Claro que competência não lhe falta para recriar com sucesso a atmosfera gelada e as torrentes melódicas de blast-beats legadas para a posteridade num «The Somberlain». O problema é que, por melhor que ele o faça, o original é sempre preferível.

in Clip (Diário de Aveiro), 24 Fevereiro 2011

MIRROR OF DECEPTION

«A Smouldering Fire»
(Cyclone Empire) [7.5/10]

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São uma das mais antigas formações germânicas de doom metal tradicional e acabam de regressar com nova proposta centrada em riffs graves e massivos e cadências arrastadas ao bom velho estilo de bandas como Candlemass e Saint Vitus. Introspectivo, vagamente psicadélico, e claramente mais variado do que «Shards», este é um registo de altos e baixos, que tanto contém as melhores composições de sempre do quarteto, como temas relativamente pobres e desinteressantes.

in Clip (Diário de Aveiro), 24 Fevereiro 2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011

HELRUNAR

«Sól»
(Lupus Lounge, 2011) [8/10]

Pode não vir a figurar nas listas dos melhores álbuns do ano, mas é com certeza o disco mais marcante até agora na carreira ainda florescente dos Helrunar. Um trabalho monumental em dois CDs, que vê a formação alemã descolar finalmente dos estereótipos sónicos de origem norueguesa que moldaram algo excessivamente o cru e directo «Baldr ok Íss», para progredir agora de forma determinada na direcção de um black metal musicalmente mais maduro e bem mais interessante. Desde o início esmagador de “Kollapsar” até ao desfecho apoteótico da faixa-título, «Sól» mostra a dupla Skald Draugir/Alsvartr a apostar desta vez numa composição mais variada, profunda e atmosférica, com andamentos mais lentos, sem esquecer os já habituais interlúdios acústicos e introspectivos. A primeira parte, «Sól I», inclui o material mais abrasivo e violento, enquanto «Sól II» é marcado pelas peças mais moderadas e experimentais. É nesta segunda parte que se identificam algumas inflexões que remetem de imediato (e de maneira talvez demasiado óbvia) para os compatriotas Secrets of the Moon. A sonoridade, sinistra e avassaladora, saída das mãos de Markus Stock, é aqui um elemento fundamental sem o qual o disco não teria o mesmo impacto. De lamentar desta vez, e mais do que nunca, o idioma nativo da banda, que dificulta o acesso à dimensão lírica, aparentemente extraordinária, deste trabalho conceptual. No fim fica a clara convicção de estarmos perante um colectivo capaz de levar a sua música para além do paradigma convencional, sendo «Sól», sem dúvida, um passo de gigante nesse sentido.

in Clip (Diário de Aveiro), 10 Fevereiro 2011

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

SEVERE TORTURE

«Slaughtered»
(Season of Mist, 2010) [7.5/10]

Com um lugar já conquistado entre as formações mais doentias do metal extremo, os holandeses Severe Torture mostram neste quinto registo que não é preciso inventar muito para produzir death metal de qualidade; basta conseguir o equilíbrio certo entre brutalidade e melodia e disparar no processo uma mão cheia de ganchos infecciosos que nos acertem em cheio naquele nervo mais sensível. O resultado?... Uma carnificina de riffs que nos revolve as entranhas, e da qual só escapamos com os tímpanos em sangue.

in Clip (Diário de Aveiro), 30 Dezembro 2010

KING OF ASGARD

«Fi’mbulvintr»
(Metal Blade, 2010) [7/10]

Projecto de dois membros dos extintos Mithotyn e um álbum que bem podia passar pelo disco de regresso desses antepassados dos Falconer. Menos apostado na ambiência black e mais voltado para um death pujante torneado por melodias folk, muito em linha com o estilo dos compatriotas Amon Amarth com alguns lampejos fustigantes a lembrar os Dawn, «Fi’mbulvintr» é um trabalho ao melhor nível no que se propõem oferecer, mas que não adiciona rigorosamente nada ao género – já de si muito explorado – em que se insere.

in Clip (Diário de Aveiro), 30 Dezembro 2010

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ATHEIST

«Jupiter»
(Season of Mist, 2010) [8.5/10]

Para uma banda lendária como os Atheist – que lançou, no início dos 90s, através de três álbuns incontornáveis, as sementes do chamado death metal progressivo, vindo a desaparecer logo a seguir – um disco de regresso só podia ser esperado com grande ansiedade. Estaria o colectivo da Florida a congeminar, dezassete anos depois, algo comparável a uma obra-prima como «Elements»? Agora que o facto está consumado, a resposta é, definitivamente, não. Contudo, «Jupiter» não deixa de ser um álbum distintamente Atheist: muito daquilo que sempre fascinou os entusiastas da banda, designadamente a proficiência técnica com que debitam riffs enviesados, transições nervosas e leads alucinantes em composições muito complexas – tudo continua aqui presente. Algumas passagens chegam mesmo a invocar o extraordinário «Unquestionable Presence». Kelly Shaefer mantém o seu jeito thrashy e obnóxio de esfarrapador de cordas vocais (além de excelente letrista), enquanto o outro membro da formação original, o baterista Steve Flynn, volta a presentear-nos com uma exibição de cair o queixo que monopoliza todas as atenções. Assim, os fãs têm aqui, pelo menos o essencial para não se sentirem defraudados. No entanto também é verdade que este novo registo não tem a mística nem a qualidade absolutamente orgásmica dos dois álbuns anteriores. Alguns temas soam demasiado desconjuntados e insípidos para conseguirem prender o ouvinte, mesmo depois de alguma insistência. Porém, se observado apenas na justa perspectiva do death/thrash metal técnico que tem sido produzido nos últimos anos, este é sem dúvida um disco ao nível do melhor do género.

in Clip (Diário de Aveiro), 30 Dezembro 2010