quinta-feira, 30 de setembro de 2010

WATAIN

«Lawless Darkness»
(Season of Mist, 2010) [8.5/10]

Se «Sworn to the Dark», o álbum anterior dos Watain, soou como uma colagem estilística evidente mas ainda assim bem-vinda a bandas como Dissection e Dawn, o mesmo já não se poderá dizer deste novo registo de estúdio. O que não é propriamente motivo para alarme: os fãs daquelas magníficas melodias desoladas celebrizadas pela banda do malogrado Jon Nordveit, podem dormir descansados pois estas continuam a surgir aqui no seu melhor por entre riffs old-school, embora de uma forma mais subtil. Mas embora dependa muito menos desses elementos, o que se salienta em «Lawless Darkness» é o arsenal de influências thrash e heavy tradicional que o trio sueco recupera do seu passado remoto, traduzindo-as em malhas tão inesperadas que por vezes nos esquecemos que estamos a ouvir uma banda de black metal. É o que acontece de forma notória no ambicioso “Waters of Ain”, em especial naquele grande final apoteótico, bem como nos leads de “Total funeral”. Outros temas dignos de nota são os brilhantes “Hymn to Qayin” e “Kiss of death”, estes sem solos, e mais em linha com o que ouvimos do colectivo de Uppsala nos dois discos anteriores. Apesar de modesto no que toca a aspectos de originalidade, este quarto longa duração ganha pelo nível superior de composição que exibe, tanto nas passagens melódicas de beleza diabólica, como nos segmentos mais furiosamente punitivos. Liricamente, não há surpresas: este é mais um monumento erigido às forças da escuridão, com uma intensidade blasfema suficiente para pulverizar de um sopro meia dúzia de congregações religiosas.

in Clip (Diário de Aveiro), 2 Setembro 2010

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

NACHTMYSTIUM

«Addicts: Black Meddle pt.2»
(Candlelight, 2010) [9/10]

Um álbum invulgar, sem dúvida, tendo em conta o meio extremo em que se insere, mas que não surpreende face ao percurso artístico da banda em causa. De facto, depois do alucinogénio «Assassins», a opção por uma abordagem menos psicadélica e mais rock‘n’roll patente neste segundo tomo de «Black Meddle», soa até como um seguimento natural. Da estética extrema do black metal que moldou originalmente o colectivo norte-americano, resta agora pouco mais do que a voz rouca do líder Blake Judd, bem como um som caracteristicamente sujo que, na verdade, joga muito a favor do hard-rock retro que pauta mais de metade dos temas. Na sua maior parte «Addicts» é um álbum cheio de composições padronizadas mas plenas de balanço, com refrães apunkalhados que não nos saem mais da cabeça, e ganchos que soam bizarros de tão catchy, havendo até espaço para alguns devaneios pop. Aquele loop incessantemente ondulante em «No funeral» fica para a posteridade como um das ideias mais desconcertantes em todo o álbum. E os solos muito vintage saídos das seis cordas dos convidados Matt Johnson (Pharaoh) e do ex-Pentagram Russ Strahan conjuram da melhor maneira o espírito revivalista que a banda pretende invocar. À primeira impressão, «Addicts» poderá soar como uma incursão excessiva em universos distantes, mas no fim a sensação que perdura é a de uma combinação muito bem conseguida entre o rock/punk dos 70s e a crueza típica das sonoridades mais negras do metal.

in Clip (Diário de Aveiro), 5 Agosto 2010

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

VOA2010

Lagoa de Calvão, 6 & 7 de Agosto

Depois de uma estreia em 2009 com um cartaz preenchido por alguns dos nomes mais sonantes da música extrema, o Vagos Open Air volta a impor-se pela magnífica selecção de bandas convidadas. Entre estreias absolutas, regressos há muito desejados, e uma amostra do melhor que o underground nacional tem para oferecer, esta é uma 2º edição decididamente feita à medida de um leque alargado de preferências.

CARCASS
Aproveitando o reagrupamento da histórica banda de Jeff Walker, Bill Steer e Michael Amott, esta é sem dúvida uma das apostas mais oportunas do festival. No final da década de 80 injectaram sangue e entranhas na brutalidade sónica do death metal, tornando-se na referência principal para os fanáticos das vertentes doentias do gore e splatter que lhes sucederam. Em 1993 estiveram por cá a promover o álbum «Heartwork», e regressam agora, revitalizados, para mostrar que velhas… são as carcaças.

MESHUGGAH
Ao fim de 23 anos de actividade, aqui está, finalmente, a muito aguardada estreia absoluta em solo português. Mestres incontestados dos riffs sincopados, os Meshuggah já há muito que entraram para a história do metal, fruto de uma personalidade sónica vincada, e de um talento inato para a inovação rítmica. Formados por autênticos músicos-prodígio, a banda sueca é responsável por registos que entretanto viraram clássicos, tendo assinado recentemente «ObZen», o 6º longa duração que vendeu, só na semana a seguir ao lançamento, quase doze mil cópias.

MY DYING BRIDE
Pioneiros no híbrido death/doom, os My Dying Bride são conhecidos por transformar como ninguém os recantos mais sombrios das emoções humanas em performances apaixonantes de música e poesia com tanto de sublime como de avassalador. Quem conhece minimamente o repertório absolutamente incontornável do colectivo britânico, sabe que esta se adivinha certamente uma das actuações mais marcantes do Vagos deste ano.

AMORPHIS
Estiveram por cá há 15 anos a promover «Tales from the Thousand Lakes», um dos discos mais inovadores da década de 90 na área do death metal, que de uma assentada transformou estes finlandeses num dos nomes mais reverenciados do underground. Embora com o passar dos anos a banda tenha progredido no sentido de estéticas mais acessíveis, a sua produção musical manteve-se sempre interessante, como o comprova o recente «Skyforger».

KAMELOT
Apesar do modesto início de carreira em meados dos 90s, os norte-americanos Kamelot são actualmente um dos grandes baluartes do power metal sinfónico, com uma discografia que inclui vários álbuns considerados de culto entre os fãs. Nesta que é (pelo menos) a terceira visita a Portugal da formação de Thomas Youngblood, espera-se um set recheado com muitos temas do sucessor de «Ghost Opera», a editar em Setembro.

ENSIFERUM
Mais um de entre o contingente finlandês de grupos a desfilar no palco do Vagos, os Ensiferum trazem na bagagem ainda fresco o novo álbum «From Afar». Considerado em alguns quadrantes como o trabalho mais bombástico de sempre de Markus Toivonen e companhia, este quarto registo constitui também a melhor amostra do estilo de viking metal, veloz e furioso (e com solos magníficos), que sempre foi a imagem de marca do colectivo.

THE FIRSTBORN
Apesar de contar já com dois anos desde que foi lançado, «The Noble Search» ainda se mantém bem vivo na memória colectiva, tal foi a impressão que causou. Para os The Firstborn foi o culminar de um percurso pautado por uma constante renovação artística, que os distinguiu pelo conceito original de música extrema com pinceladas étnicas e influências budistas. Quem os viu ao vivo diz que são tão espantosos como no disco.

GWYDION
Fazem um misto de folk e viking metal ao estilo nórdico e são já bem conhecidos pelas suas contagiantes actuações ao vivo. Dois anos depois do primeiro grito de guerra a que chamaram «Ŷnys Mön» e da feroz invasão europeia que protagonizaram logo a seguir, o clã de Lisboa acaba de regressar com «Horn Triskelion», uma nova colecção de cânticos bárbaros que prometem fazer correr a cerveja e gerar muita animação nas hostes do Vagos.

Ghost Brigade, Oblique Rain, Miss Lava e Prayers of Sanity são os restantes nomes a reter do luxuoso elenco do Vagos Open Air 2010.

in Clip (Diário de Aveiro) 29 Julho 2010

segunda-feira, 19 de julho de 2010

IHSAHN

«After»
(Candlelight, 2010) [9.5/10]

Depois do lançamento de «After» já não restarão dúvidas de que o trabalho a solo de Ihsahn, tomado no seu conjunto, é hoje tão apelativo e relevante como o foram no passado os melhores álbuns dos Emperor. Concluindo uma suposta trilogia iniciada em 2006 com «The Adversary» e continuada em 2008 com «Angl», o músico norueguês acaba de nos brindar com um trabalho que preserva traços do vanguardismo cultivado até aqui, mas que se distingue fundamentalmente pelo ênfase nos aspectos mais progressivos e pela utilização do saxofone, não como mero elemento de arranjo, mas antes como instrumento de primeiro plano que irrompe frequentemente com magníficos fraseados melódicos ou numa abordagem mais free jazz. Com uma execução superior de Jorgen Munkeby, dos Shining, é mesmo caso para dizer que nunca o saxofone soou tão bem num contexto de metal extremo. Embora alguns dos temas remetam ainda para a composição angular do disco anterior, este é, em geral, um álbum de parâmetros mais ortodoxos, o que, a par dos refrães contagiantes entoados na voz plácida de Ihsahn (que se sobrepõem amiúde ao seu inconfundível registo abrasivo), concorre para fazer deste o trabalho mais acessível do ex-Emperor. Mas «After» não é um disco simplista, muito pelo contrário. Resultado duma criatividade no seu auge e enriquecido uma vez mais pela secção rítmica genial dos Spiral Architect: Lars Norberg (baixo) e Asgeir Mickelson (bateria), «After» constitui uma realização assombrosa, vibrante de musicalidade de fio a pavio, que tem tudo para resistir ao teste mais exigente: o do tempo.

in Clip (Diário de Aveiro), 8 Julho 2010

sábado, 3 de julho de 2010

AVULSED

«Nullo (The Pleasure of Self-Mutilation)»
(Xtreem Music, 2009) [7/10]

Viciados desde há vinte anos para cá na forma mais perversa de cacofonia alguma vez engendrada pela mente humana, estão de regresso com mais uma dose mortífera de death metal capaz de provocar a declaração de um estado de emergência. Se o demolidor «Gorespattered Suicide» injectou alguma extravagância no reportório essencialmente tradicional da banda Madrilena, então este quinto de originais soa a algo mais back to the basics. Passado o festival de agressão sem quartel das primeiras quatro faixas, o disco entra no seu melhor com arremedos infernais de thrash, riffs esmagadores e malhas impiedosas que agarram o ouvinte pelas partes mais sagradas. As mudanças súbitas de andamento de «Nazino (cannibal hell)» e as malhas infecciosas de «Penectomia» fazem destes os temas mais salientes de «Nullo». Também de destacar é a prestação fabulosa do (ainda) novo baterista Riky, bem como os leads melódicos que Cabra e Juancar arrancam das seis cordas, criando um contraste bem-vindo com o massacre sónico da secção rítmica. O rugido cavernoso e os berros doentios do carismático Dave Rotten traduzem da melhor maneira as temáticas depravadas de gore, mutilação e perversão sexual, as quais se reúnem em «She’s hot tonight (in my oven)» para criar um dos melhores momentos de humor negro do álbum. Longe do melhor absoluto dos Avulsed – que têm ainda em «Stabwound Orgasm» o seu ex-libris -, e talvez até uns furos abaixo do álbum anterior, este é definitivamente um dos discos mais directos da banda espanhola. Death brutal na sua forma mais básica e genérica. Só para fãs.
in Clip (Diário de Aveiro), 8 Julho 2010

domingo, 27 de junho de 2010

PLAYLIST

Ou o que tem andado a girar recentemente na vitrola

ALCEST
«Percées de Lumière»
Poucos são os temas de black metal capazes de sugerir uma sensação positiva de serenidade como este, incluído em «Écailles de Lunes». Os Agalloch e os Novembre apenas se aproximaram deste resultado. Mas Neige parece ter descoberto a harmonia perfeita entre a agressividade natural do estilo e a tranquilidade de sonoridades límpidas que pouco ficam a dever ao Metal. Se tivesse que escolher agora a melhor música de 2010, esta seria uma séria candidata.

COBALT
«Arsonry»
Intercalando passagens furiosamente devastadoras com momentos opressivos de pulsação tribal, este constitui provavelmente um dos melhores momentos de «Gin», o álbum mais recente da dupla Erik Wunder / Phil McSorley, que nos agraciou em 2007 com o colossal «Eater of Birds». Apesar deste terceiro registo ficar uns furos abaixo, o simples acto de sermos fustigados por semelhante híbrido de black/thrash e post-hardcore mal intencionado, é sempre uma experiência única.

DARGAARD
«Thy Fleeing Time»
É um das peças mais salientes de «The Dissolution of Eternity», o álbum de 2001 desta banda austríaca, que já anda no meu leitor de mp3 há algum tempo. A sonoridade é toda pomposa, mas as melodias neoclássicas e a atmosfera imponente veiculam sempre uma profundidade de sentimento que é no mínimo comovente. E neste tema em particular a voz de Elizabeth Torizer soa como se nos chegasse de uma outra dimensão. O que será feito do Sr. Tharen e dos Dargaard?

DEATH ANGEL
«The Ultra-Violence»
Conta já com uns respeitáveis 23 anos de idade e é talvez o melhor instrumental thrash de sempre. Incluído no álbum de estreia homónimo da banda de São Francisco, é um tema com uma composição incrivelmente sofisticada para o seu tempo, que os Death Angel não mais ousaram igualar. Ao todo são dez minutos de riffs electrizantes e solos esmifrados, que ainda hoje acompanho como um doido na minha air-guitar!

IMMOLATION
«A Glorious Epoch»
Depois dum álbum relativamente pobre em termos de inspiração como foi «Shadows in the Light», é bom saber que uma das minhas bandas favoritas da zona mais brutal do espectro está de volta ao seu melhor. Mais do que um vulgar massacre sónico, «Majesty and Decay», do qual este «Glorious epoch» é a melhor amostra, desbrava caminhos sombrios ainda não palmilhados pela banda americana, e é o combustível ideal para o fogo do nosso lado mais negativo.

TRIPTYKON
«Descendant»
Continua a gerar ondas de choque um pouco por todo o lado, não só porque é mais uma infame criação do venerável Tom Gabriel “Warrior”, mas também porque é impossível ficar indiferente à atmosfera opressiva e abissal e ao peso esmagador omnipresente em «Eparistera Daimones». Em toada lenta e desolada, num estilo venenoso que se confunde com o dos extintos Celtic Frost, «Descendent» é um dos vários temas memoráveis deste álbum. A tirada fulminante no minuto final é impagável.

(brevemente) in Versus Magazine

terça-feira, 15 de junho de 2010

ANTARES PREDATOR

«Twilight of the Apocalypse»
(Battlegod Productions, 2010) [6/10]

Poucas bandas se podem gabar de apresentar um álbum tão variado em termos de estilos e influências como os Antares Predator. Entre doses mortíferas de blast beats, riffs galopantes e curtos segmentos sinfónicos de metais, o colectivo norueguês desfia aqui malhas thrash a puxar para o death metal mais técnico, momentos de black metal que soam umas vezes a Dimmu Borgir, outras a Satyricon e outras ainda a Emperor. Quando a coisa fica mesmo preta, como acontece no esmagador «Mark 13» que rola a umas alucinantes 260bpm, aí as referências óbvias apontam para Marduk ou Dark Funeral. Portanto já se está a mesmo ver: o disco tem inegavelmente os seus momentos, mas encosta-se despudoradamente a tudo e mais alguma coisa. As orquestrações sampladas, bem colocadas, e o trabalho rítmico criativo, acabam por constituir os elementos mais atractivos. Contudo, «Twilight of the Apocalypse» acaba por não funcionar, em grande medida devido a uma composição pobre, uma dinâmica reduzida, um som demasiado cru e mecanizado, e um trabalho quase inexistente de guitarra solo. O resultado final redunda numa salgalhada muito insípida que acaba por deixar para trás pouco mais do que uma sensação de indiferença. E o que é mais surpreendente é que semelhante estreia sofrível não nos chega das mãos de principiantes, mas de músicos competentes e supostos artistas com créditos firmados como sejam o ex-Keep of Kalessin Øyvind Winther (guit.) e o ex-baterista dos Belphegor, Jan “Blastphemer”. Enfim, há coisas que não deviam acontecer.

in CLIP (Diário de Aveiro), 11 Junho 2010

sábado, 29 de maio de 2010

GWYDION

«Horne Triskelion»
(Trollzorn Records, 2010) [7/10]

Embora a colonização Viking dos séculos VIII a XI não se tenha alastrado até à nossa costa, o imaginário aventureiro destes bárbaros do norte já há muito que conquistou a praia dos portugueses Gwydion. Este segundo álbum irá certamente agradar aos incondicionais do folk metal nórdico ao estilo de bandas como Finntroll, Tyr e Turisas, com as suas melodias ora sumptuosas ora festivas, conduzidas por teclados ou instrumentos tradicionais sobre uma secção rítmica possante, e com os habituais coros masculinos taberneiros a invocar sempre imagens de guerreiros ébrios a agitar canecas de cerveja. É impossível ficar indiferente a temas como “From Hel to Asgard”, “Triskelion horde is nigh” ou mesmo “Ofiússa (A terra das serpentes)”, com os seus contornos sinfónicos, vozes femininas muito bem colocadas e até uma breve passagem cantada em português. A evolução registada em relação a “Ynys Mön”, o primeiro álbum, é notória, tanto do ponto de vista da composição, cujos meandros a banda parece já dominar com alguma maturidade, como no departamento sonoro, com a mistura entregue desta vez a Børge Finstad (Mayhem, Enslaved), com resultados a roçar o excelente. O único aspecto menos abonatório a apontar ao colectivo de Lisboa é mesmo a excessiva colagem ao folk folgazão tão característico das bandas supra citadas e, em particular, a algumas melodias ou acordes que parecem já recorrentes no género. Como não se trata de falta de talento ficamos à espera de ver adicionado à música dos Gwydion um cunho mais pessoal que os torne distintos num estilo já de si bastante concorrido.

in CLIP (Diário de Aveiro), 27 Maio 2010

sexta-feira, 21 de maio de 2010

ACRASSICAUDA

«Only the Dead see the end of the War»
(Vice Records, 2010) [6.5/10]

Só o facto de serem provenientes da Bagdad do período pós Saddam, e de contarem com o orgulho de metalheads uma história de perseguição e ameaças de morte que os levou a exilarem-se primeiro na Síria, depois na Turquia e, por fim, já longe da demência islâmica, em Brooklyn, Nova York, deve ser suficiente para reconhecermos nestes iraquianos, a perseverança e os tomates que nós, ocidentais, com os nossos pequenos caprichos, nem sonhávamos ser possível. Mais do que qualquer banda de heavy metal, os Acrassicauda experimentaram, até meados de 2008, uma vivência literalmente “heavy metal”, e este primeiro trabalho, gravado já nos Estados Unidos, é disso um testemunho vívido. Produzido por Alex Skolnick (Testament) e fortemente influenciado pelos ícones do thrash que lhes serviram de inspiração desde o primeiro dia, o EP abre incisivo com “Message from Baghdad”, cujas malhas remetem desde logo para os Metallica dos 80s, ou mesmo para os Sepultura da fase “Arise”. O tema seguinte, “Garden of stones”, já aparece tingido de linhas melódicas e percussões do Médio Oriente, incluindo também alguns leads de se lhe tirar o chapéu. “Massacre” salienta-se pela raiva e desespero que os seus versos canalizam, e pelo tom vocal de Faisal Talal que nos obriga a recuar aos melhores momentos de James Hetfield. “The unknown” termina com mais meia dúzia de riffs encorpados e galopantes, daqueles que têm o estranho poder de induzir uma desenfreada agitação de cabeças. Depois do retrato heróico apresentado em “Heavy Metal in Baghdad”, aqui fica o imprescindível depoimento áudio dos Acrassicauda.

in CLIP (Diário de Aveiro), 20 Maio 2010

sábado, 15 de maio de 2010

Edição de Maio 25, 2010

Entrevista com Oyvind Winther
guitarrista dos noruegueses ANTARES PREDATOR a propósito do álbum «Twilight of the Apocalypse».

- "Não esperava receber (tantas) criticas negativas. Provavelmente as pessoas não perceberam bem o álbum. Talvez o título tenha sugerido, erradamente, algo relacionado com profecias do fim do mundo, como no filme «2012»";
- "Penso que ainda não encontramos a nossa própria assinatura musical. Precisamos ainda de fazer mais um ou dois álbuns para chegar lá";
- "As guitarras deviam ter ficado um pouco mais graves e deviamos ter incluído mais elementos orquestrais";
- "As ideias para este álbum tiveram origem, em grande parte, no filme «Hardware» do Richard Stanley, de 1991".
(Oyvind)
>>> Click on the picture to download the full interview

segunda-feira, 10 de maio de 2010

SVARTTHRON

«Kraujo Estetika»
(Inferna Profundus Records, 2010) [4.5/10]

Quem teve algum contacto prévio com os Svartthron deve associar mentalmente este nome ao estilo de black metal depressivo, atmosférico e a meio tempo que a banda imprimiu em “Bearer of the Crimson Flame” e nos dois registos que o precederam. Se for esse o caso do leitor, então prepare-se para uma surpresa pois quase tudo se alterou neste projecto lituano, e não foi para melhor. Para começar, o único músico responsável pela banda, Tomhet, optou aqui por explorar uma variedade de black metal mais veloz e primitiva, mas sem grandes resultados. Quase não há riffs memoráveis e tudo soa excessivamente vulgar e genérico. Salvo raras excepções, a composição é demasiado idiossincrática para deixar alguma marca duradoura, e nem a prestação de [k] dos Argharus, alegadamente o primeiro baterista humano a participar numa gravação dos Svartthron, é suficiente para evitar a derrapagem para um abismo de tédio. Mas o que arruína mesmo este disco é a interpretação vocal, desta vez confiada – lamentavelmente – a Levas dos compatriotas Andajas. É que tirando as poucas vezes em que as vozes se toleram, nomeadamente quando surgem sussurradas ou quase declamadas, em geral soam de tal forma estridentes e histéricas que não fazem mais do que nos deixar os nervos em franja. O que atrai neste álbum é mesmo o grafismo cuidado de todo o artwork, muito numa estética post-black, bem como a perspectiva niilista de todo o conceito lírico (pela primeira vez expresso no idioma nativo da banda) sobre o sangue. Mas isto, claro, nunca é o que mais interessa num disco.

in CLIP (Diário de Aveiro), 6 Maio 2010

quinta-feira, 29 de abril de 2010

ALCEST

«Écailles de Lune»
(Prophecy Productions, 2010) [9/10]

Depois dum disco como «Souvenirs d’un autre monde», que não trouxe mais do que uma pálida imagem do black metal original dos Alcest com a sua base temperada de guitarras saturadas, muito ficou em aberto em relação ao que a mente criativa de Neige seria capaz de arquitectar a seguir. Com o segundo álbum finalmente disponível, a primeira coisa que ocorre dizer é que estamos perante a realização mais genial até agora do multi-instrumentista francês, que é também o único responsável por este projecto. A maior novidade a realçar é sem dúvida a inclusão de algumas tiradas rápidas que nos podem fazer recuar cinco anos no tempo, até ao EP “Le Secret”. Contudo, ao invés de soarem negras e frias, estas breves passagens de black metal soam grandiosas e até animadoras, contribuindo decisivamente para criar aqueles que são os trechos mais sublimes de todo o álbum: “Écailles de lune, pt II” e “Percées de lumière”. Mas apesar do toque mais agressivo, este é um trabalho que tem tudo a ver com “Souvenirs…”, embora exiba uma progressão notável, em todos os aspectos, em relação a esse disco de 2007. Dominado por um manto sonoro que emana sentimentos de pesar e nostalgia, feito de acordes límpidos com uma certa reverberação tremeluzente, linhas melódicas perfeitas que apaixonam à primeira audição e, claro, a voz tranquila de Neige que flutua etérea, chegando a soar até inocente, «Écailles de Lune» é assim como uma espécie de passagem secreta para uma dimensão surreal, intangível; um mundo de sonhos, fascinante e assustador ao mesmo tempo.

in CLIP (Diário de Aveiro), 29 Abril 2010

domingo, 18 de abril de 2010

Edição de Abril 20, 2010

Entrevista com Miguel "Kaveirinha" (guitarra), Ruben Almeida (voz) e Daniel César (teclados), membros dos portugueses GWYDION, a propósito do novo álbum «Horn Triskelion».
- "Embora os Gwydion não sejam originalmente uma banda de folk metal, o «Ynys Mön» já deu mostras de querermos enveredar por esse caminho, e este último álbum é, por assim dizer, a consolidação dessa tendência";
- "...estamos convencidos que o contributo de cada um de nós tornou a sonoridade final deste álbum bastante rica e particular. E não acredito que a sonoridade esteja assim tão próxima de outro tipo de trabalhos";
- "Penso que não é pelo facto de sermos portugueses que devemos ter vergonha de explorar uma temática relacionada com uma cultura que nos interessa"
(Kaveirinha, Ruben e Daniel)
>>> Click on the picture to download the full interview

quarta-feira, 14 de abril de 2010

ARGHARUS

«Pleištas»
(Inferna Profundus Records, 2009) [7.5/10]

Chegam-nos de um dos lugares mais recônditos da Europa de leste, a Lituânia, com uma proposta de black metal nitidamente influenciada pelo legado dos nomes maiores do género, como sejam Mayhem e Immortal, e uma sonoridade crua e algo primitiva, feita de riffs crispados e arrasadores, sem qualquer recurso a teclados. Numa demonstração de talento que é pouco comum em álbuns de estreia, a banda mostra como é possível agarrar numa mão cheia de riffs viciantes e construir longos temas com pés e cabeça, mantendo uma composição madura e inteligente que favorece os andamentos apressados e com o suficiente em textura para nos pregar o ouvido às colunas. Embora toda a interpretação seja feita no idioma nativo do colectivo, é quase impossível não perceber no vocalista 7 os tiques dementes de Niklas “Kvarforth” ou, por vezes, o registo tipicamente tortuoso de Attila Csihar. A execução de todos os instrumentos soa sempre bastante precisa e coesa, e o nível de qualidade é mantido razoavelmente constante ao longo de todas as faixas, excepto talvez nos dois minutos redundantes de estática e ruído industrial daquela que é, supostamente, uma peça instrumental. Mas o melhor fica reservado para o fim, no tema “Prakalba i atmatas”, um excerto de rara inspiração que vale também pela refrescante fuga a alguns dos lugares comuns a que a banda não conseguiu evitar nas faixas anteriores (os primeiros 2’.30” são particularmente excepcionais). Ficamos a torcer para que este momento constitua, de alguma maneira, uma indicação de uma direcção a explorar no futuro.

in CLIP (Diário de Aveiro), 15 Abril 2010

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Edição de Abril 6, 2010

Entrevista com Morean,
vocalista dos alemães DARK FORTRESS a propósito do novo álbum «Ylem».

- "Penso que desta vez a música saiu mais lenta, na generalidade, devido a influências que o Santura (guitarra) recebeu dos Celtic Frost, quando tocou com eles em 2007/2008;
- "Se fossemos outro tipo de banda e fizéssemos um tema melódico e baladesco como o "Wraith" seriamos imediatamente acusados de vendidos. No black metal um tema como este é o caminho mais curto para uma sentença de morte comercial, pois não te ajuda nada nesse ponto de vista";
- "Sim, toda a gente tem perguntado o que se passa com a percussão nas faixas 2 e 3 do CD pensando que há alguma coisa de errado, mas é mesmo assim!";
- "Para nós este álbum foi também uma espécie de busca de uma essência musical; uma reflexão sobre os elementos que são realmente fundamentais nesta banda.

(Morean)
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sábado, 20 de março de 2010

DARK FORTRESS

«Ylem»
(Century Media, 2009) [8/10]

Ultimamente, na área específica do black metal, a produção alemã tem mostrado as suas garras através de um conjunto de lançamentos incontornáveis aos quais se junta agora este novo registo dos Dark Fortress. Se em 2008 o anterior «Eidolon» foi sentido como um dos trabalhos mais bombásticos da banda bem como uma evidente acomodação ao nicho mais ortodoxo do género, «Ylem» volta a aventurar-se para lá dos aspectos tradicionais e previsíveis do black metal, enveredando por territórios que, não constituindo novidade em si, permaneciam ainda intocados na discografia pretérita. Este sexto de originais do colectivo bávaro é assim um disco muito mais apostado na criação de atmosfera, com mais de metade dos temas a rolar entre o meio tempo e o lento, e até com Morean a mostrar em duas ocasiões (“Evenfall” e “Wraith”, este último especialmente evocativo da fase clássica dos Solitude Aeturnus) que sabe cantar como os vocalistas de heavy tradicional. A sonoridade mantém-se relativamente standard mas a composição é primorosa e das mais variadas de sempre, com riffs pontuadamente esmagadores, belíssimas linhas de guitarra de grande inspiração, um fundo subtil de teclados, alguns refrães contagiantes, e uma daquelas produções que até brilha de tão lustrosa. É inevitável não se detectar aqui uma influência mais visível de Celtic Frost o que até é compreensível, mostrando que a passagem de Vic Santura, principal compositor dos Dark Fortress, pela extinta formação liderada por Tom “Warrior”, deixou as suas marcas.

in CLIP (Diário de Aveiro), 18 Março 2010